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Autor: O Globo - 08/02/2018 15h38

Estudo identifica vírus da febre amarela em urina e sêmen de paciente

Descoberta abre caminho para exames de diagnóstico não invasivos


A vacinação é a melhor forma de prevenção da febre amarela - Márcia Foletto / Agência O Globo

Uma descoberta feita por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da USP pode alterar os protocolos sobre o diagnóstico da febre amarela. Análise de amostras de urina e sêmen de um paciente que sobreviveu à doença detectou a presença do vírus quase um mês após a infecção, indicando que os atuais exames de sangue podem ser substituídos por uma técnica menos invasiva. Por outro lado, o achado alimenta a tese de que o contágio possa acontecer via relações sexuais, como ficou comprovado com a zika.

— A gente não pode descartar essa hipótese — comentou o professor Paolo Zanotto, um dos cientistas envolvidos no estudo publicado na revista “Emerging Infectious Diseases”, sobre a possibilidade de transmissão por relações sexuais. — Mas pelos surtos que observamos na África, não percebemos evidências de que isso está acontecendo. E se acontecer, seria um caso ou outro, sem impacto relevante em epidemias.

Já a possibilidade de diagnóstico da infecção de maneira não invasiva, e por um maior período de tempo, pode ajudar no controle da doença. Hoje, a detecção do vírus é realizada por exame de sangue ou de plasma.

— A urina é um material de coleta mais simples e não invasivo. Numa criança ou num idoso, é preferível a coleta da urina — explicou Zanotto. — E o vírus persiste por mais tempo, sendo possível identificar o contágio mesmo em pessoas que não manifestaram os sintomas.

A descoberta de que o vírus persiste no organismo do paciente por um longo período levantou dúvidas sobre a possibilidade de a transmissão entre humanos ser possível mesmo após o desaparecimento dos sintomas, mas Zanotto descartou essa hipótese. Ele explica que o contágio da febre amarela acontece por meio da picada de um mosquito — no caso urbano, o Aedes aegypti —, então seria preciso a presença do vírus na corrente sanguínea.

O período de transmissibilidade tem início entre 24 e 48 horas antes do aparecimento dos sintomas e se encerra entre 3 e 5 dias após a manifestação da doença. Os sintomas incluem febre alta, calafrios, dores de cabeça e no corpo, náusea e vômito, e desaparecem em poucos dias. Mas uma pequena parcela dos casos evolui para a chamada fase tóxica, mais grave, que mata metade dos pacientes num período de sete a dez dias.

— A descoberta não altera o que a gente já conhece, o vírus desaparece antes no sangue — afirmou Zanotto. — Como a transmissão é feita por um vetor, então o que importa é a viremia (presença do vírus no sangue).

O CASO ESTUDADO

O paciente acompanhado pelos cientistas é um morador de São Paulo de 65 anos, que viajou para Januária, em Minas Gerais, no dia 28 de dezembro de 2016, e para uma área rural em São Paulo em 3 de janeiro de 2017. Três dias depois, ele apresentou febre, calafrios, dores no corpo e náusea. Nos três dias seguintes, os sintomas se agravaram, com dores de cabeça, vômitos, prostração e urina escura. No dia 9, foi admitido num hospital em Januária, onde o diagnóstico de dengue foi descartado.

Voltando para São Paulo, no dia 13 ele foi admitido num hospital público e, posteriormente, encaminhado para um hospital de referência para doenças infecciosas. Como já havia passado um longo período desde o surgimento dos sintomas, os exames de sangue e plasma deram negativos, mas a análise da urina detectou a presença do RNA do vírus.

No dia 27 de janeiro foram coletadas amostras de sangue, urina e sêmen, sendo que nos dois últimos os resultados foram positivos. “Nossos resultados sugerem que o sêmen pode ser um material clinicamente útil para o diagnóstico da febre amarela e indicam a necessidade de testes em amostras de urina e sêmen de pacientes com a doença avançada. Esses testes podem melhorar o diagnóstico, reduzir os falsos negativos e fortalecer a confiabilidade dos dados epidemiológicos para a atual e futuras epidemias”.



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